Terça-Feira, 7 de Fevereiro de 2012

O CORTE NO “BENEFÍCIO” Por: Manuel Igreja / 22-07-2011 Imprimir Enviar a um amigo

                       O CORTE NO “BENEFÍCIO”  

No tempo em que os animais falavam, ou por lá perto, para se ter a vidinha garantida no Douro produtor do afamado vinho fino, mais não era preciso do que ter-se na posse, uma boa mão cheia de pés de videira reconhecidas como susceptíveis de produzirem uvas cujo mosto poderia ser beneficiado com a adição de aguardente para dar em vinho do Porto.

Batesse por essa via a sorte à porta, e pronto. Era só deixar passar o tempo entre uma e outra vindima, que caso se não se perdesse de todo o tino, poucas seriam as aperreações no que ao sustento tocasse. Dava para tudo, mesmo para as extravagâncias das meninas e dos meninos, que ou se passeavam grosso modo pelo Porto, ou se entretinham na boa-vai-ela pela Régua e seus arredores.

No Douro de então, ser-se proprietário, era mais que uma profissão, pois era como que uma condição. Obviamente que a carapuça nem por todos é enfiada, mas tenha-se santa paciência, que na maioria dos casos ela fica muito bem. Durante décadas, andou-se na morrinha e na santa paz do senhor. Entorpeceram-se as mentes e quando foi necessário assumirem-se posturas empresariais não foi fácil.

Nem sequer se consegui defender a organização da classe, e muito menos se soube ou se quis fazer valer a exclusividade do produto inteligentemente defendida por uma regulamentação com provas dadas em termos de eficiência, apesar do histórico período de vigência.

Com a moda do mercado a mandar em tudo a seu bel-prazer, não se descansou para interesse de alguns, enquanto se não entregaram trinta e tal mil que produzem, nas mãos de uma meia dúzia que comercializa, e que como lhe compete puxa a brasa para a sua sardinha, que é como quem diz, faz tudo por tudo para que as condições lhes sejam as melhores. Desde que o Douro é Douro em termos de viticultura que é assim. Por isso o marquês e mais o senhor D. José I em boa hora criaram regras no sector.

Veio no entanto o tempo em que se acha que as coisas devem funcionar em roda livre com cada qual a fazer valer o seu poder e o seu saber. Nesta era, nada é garantido e nada é permanente a não ser a mudança. No contexto em que nos cingimos, os rendimentos deixaram de ser garantidos pelo simples facto de se ser proprietário de algumas parcelas de vinha com “benefício”. Ano após ano, o quantitativo e os preços têm vindo a diminuir, ainda que se jure que com a rarefacção se pretende garantir o aumento do rendimento na produção. Estamos num ponto em que a coisa começa a não dar sequer para o caldo quanto mais para o resto, numa situação paradoxal em que para uma minoria investir na viticultura duriense é o que está a dar. Olhe-se em volta para as grandes superfícies remexidas para plantios novos e facilmente se concluirá que o negócio para alguns se recomenda, e ainda bem.

Em dois mil e onze, o “benefício” vai levar mais um corte. Serão autorizadas menos vinte e cinco mil pipas de vinho do Porto em relação ao ano passado. Para uns é uma vergonha sustentada em estratégias escusas e egoístas, enquanto que para outros é o possível e o melhor para se garantir a sobrevivência de todos. Sabido no entanto, é que para muitos será o início do fim enquanto continuadores de uma tradição que fez erguer uma das mais extraordinárias obras mãos dadas com a natureza, como é mundialmente reconhecido.

Hoje em dia, já nem os animais falam, nem a vida do viticultor duriense decorre à sombra da parreira. Moureja quotidianamente em redor do que tem para não perder o chão em que põe os pés ao entrar portas adentro. Com secreta amargura, ouve dizer que os vinhos da região ombreiam com os melhores do mundo. Sente pena que a bota não bata com a perdigota. Limita-se contudo a esperar que alguém lhe ajeite o pé. Serão tiques de antigamente?

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