Quinta-Feira, 23 de Fevereiro de 2012

O AZAR DA LINHA DO CORGO Por: Manuel Igreja / 28-10-2011 Imprimir Enviar a um amigo

Costumava-se dizer na minha terra, que quando uma pessoa anda na mó de baixo, até os cães lhe urinam nos pés, assim como que a querer dizer, que quando uma coisa pode correr mal, corre mesmo mal.

Com todo o interior do país no geral, e mais em concreto com a nossa região em particular, o que tinha de correr menos bem, correu indubitavelmente pelo pior. Porque demograficamente é pouco significativa por causa da hemorragia e da debandada para o litoral de pessoas e de bens, logo nada motivador em termos de votos expressos, foram-se deixando degradar nela muitos equipamentos e serviços.

Para encher o olho construíram-se auto-estradas nas quais se não vai poder andar por falta de posses individuais que suportem os custos, ao mesmo tempo que se não investiu nas linhas do caminho-de-ferro. O povo deslumbrado com o alcatrão e sequioso de nele colocar os reluzentes automóveis a rolar, nada se importou. Nesses entrementes que duraram para cima de duas décadas, foram-se as linhas de comboio, até aí verdadeiras artérias em corpo humano a canalizar suportes de vida.

Mas andar de comboio era coisa de pobres, por isso ninguém ligou, como já referi. Foi mais um dos muitos e grandes erros que se cometeram por esse país de Deus afora, que sendo Dele, foi descuidado pelos homens ao ponto de hoje em dia estar prestes de ser inviável. Fosse Portugal uma vinha, e seria uma daquelas onde se granjeou mal e caro por via dos desmandos dos caseiros e da desatenção dos patrões que somos todos nós. Volvendo no entanto à questão dos comboios para não perdermos o fio da conversa, seguimos para dizer que a dado momento se deu pelo erro e se tentou remediar o que ainda se podia remediar. Se assim, não foi, pelo menos fez-se de conta que era, prometendo-se obras de requalificação tendo-se em vista a melhoria da qualidade na procura de mais e melhor atractividade. Era o que de dizia, e fomos acreditando. Exemplo cabal e bem próximo de nós é a Linha do Corgo entre a Régua e Vila Real, que o resto dela já há muito que se foi. Entre ambas as cidades ainda apitavam as locomotivas há coisa de três anos. Mais ou menos ronceiras, lá andavam acima e abaixo, até que alguém veio dizer que se encerrava a via para obras de requalificação com prazo de reabertura perfeitamente definido.

A esmola pareceu na altura demasiado grande, mas desconfiados uns e convenientemente confiados outros, esperou-se para ver. Esperou-se, mas melhor era não se ter esperado. Desde aí, continuou a prometer-se que de novo se ouviria o ronco da máquina a diesel no vale do Corgo, mas nada se fez nesse sentido, enquanto ninguém assumia que jamais haveria passageiros na gare de Alvações. Fizeram-no agora porque têm as costas quentes com a crise que a tudo serve de capa.

Poderemos dar de barato que as promessas em tempos feitas eram sentidas como exequíveis para não sermos tão incrédulos como São Tomé. Se calhar as intenções eram boas, as circunstâncias é que as contrariaram. Não sei. Seja como for, o certo é que se atrasou a obra, e agora não há verbas que a sustentem à semelhança de tantas outras coisas. Como também a região representa quer simbólica quer efectivamente muito pouco nos corredores do poder, não terá custado muito a tomada de decisão.

Uma vez mais Trás-os-Montes e o Alto Douro tiveram azar. Não se foi lesto nem exigente na execução da obra na Linha do Corgo, e agora nem obra nem meia obra. A linha escafedeu-se como diz o brasileiro. Houve má sorte e pior acção nesta e noutras coisas. Deixamo-nos decair, e agora só nos falta começar a sentir as botas húmidas por causa daquela coisa que dizem na minha aldeia.

Por mim, só me resta esperar que alguém tenha o bom senso de não inviabilizar de todo a via com coisa esquisitas assim do tipo ciclo pistas que ninguém percorre. É que mesmo não tendo dotes de adivinhação, tenho para mim que ainda um dia ela reabrirá com novos comboios. O caminho-de-ferro é o meio de transporte do futuro, e este ainda há-de chegar a Portugal e ao Douro.

Manuel Igreja Escreve todos os meses na Tribuna Douro

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